Estrutura centenária da Ponte de Ferro poderá ser revitalizada após indicação apresentada por deputado
Entre as paisagens históricas que marcaram o desenvolvimento da região do Coxipó do Ouro, poucas construções carregam tanto simbolismo quanto a antiga Ponte de Ferro localizada às margens da MT-402 e 030. Mesmo após décadas de existência e da ação do tempo, sua memória permanece viva entre moradores, visitantes e famílias tradicionais que ajudaram a construir a história da comunidade.
Construída no final do século XIX, durante um período de expansão das obras de infraestrutura em Mato Grosso, a ponte representa um dos mais importantes marcos do patrimônio histórico regional. Sua estrutura metálica segue os padrões de engenharia adotados na Europa naquele período, utilizando materiais e técnicas construtivas semelhantes às grandes obras metálicas da época, entre elas a famosa Torre Eiffel, em Paris.
Em uma época em que praticamente não existiam estradas e o transporte era realizado por tropas, charretes, embarcações e posteriormente, pelos primeiros veículos que chegaram ao interior mato-grossense, a Ponte de Ferro tornou-se fundamental para a integração das comunidades rurais e para o escoamento da produção da região.
Ao longo de mais de um século, a estrutura testemunhou a passagem de gerações de moradores, trabalhadores rurais, garimpeiros, comerciantes, religiosos e viajantes que ajudaram a formar a identidade cultural do Coxipó do Ouro. Cada travessia representava não apenas um deslocamento, mas um elo entre famílias, histórias e sonhos.
Os moradores mais antigos ainda recordam dos tempos em que a ponte fazia parte da rotina da comunidade. Muitos contam histórias sobre viagens difíceis pelas estradas de terra, períodos de cheia dos rios e a importância da travessia para o acesso à capital e às localidades vizinhas.
Com o passar dos anos, a antiga estrutura sofreu os efeitos naturais do tempo e acabou não resistindo à sua longa trajetória. Embora os registros oficiais sobre o episódio sejam escassos, relatos preservados pela tradição oral da comunidade indicam que a ponte veio a ruir em meados de 1994, permanecendo até hoje como uma das lembranças mais marcantes da história regional.
Mesmo sem cumprir mais sua função original, a Ponte de Ferro continua despertando admiração. Suas ruínas e sua história representam um valioso patrimônio cultural que remete ao período em que Mato Grosso iniciava sua modernização e buscava superar os desafios geográficos que dificultavam a comunicação entre as comunidades.
Reconhecendo essa importância histórica, cultural e turística, o deputado estadual Eduardo Botelho apresentou a Indicação nº 1821/2026 ao Governo de Mato Grosso e à Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Sinfra-MT), solicitando a realização de estudos técnicos para a revitalização, restauração e preservação da Ponte de Ferro da MT-402.
A proposta busca transformar o local em um espaço de valorização da memória regional, incentivando o turismo histórico, a educação patrimonial e o fortalecimento da identidade cultural da comunidade. Entre as possibilidades estão a recuperação dos remanescentes da estrutura, implantação de sinalização histórica, espaços de contemplação e inclusão da ponte em roteiros turísticos da região.
A iniciativa surge em um momento oportuno, quando o Coxipó do Ouro volta a ganhar destaque com os investimentos em infraestrutura e a valorização de seu potencial turístico, histórico e cultural.
Mais do que recuperar uma antiga estrutura metálica, a preservação da Ponte de Ferro significa manter viva a memória dos homens e mulheres que ajudaram a construir a história desta terra. Significa honrar os pioneiros que abriram caminhos quando ainda não havia estradas, preservar um legado para as futuras gerações e reafirmar o orgulho de pertencer a uma das regiões mais tradicionais de Mato Grosso.
Com a recente pavimentação asfáltica e o aumento significativo do fluxo de veículos na região, sendo trajeto que virou rota de Cuiabá para Chapada dos Guimaraes e região do Araguaia de MT, a necessidade de ampliação da capacidade da ponte tornou-se ainda mais evidente. Moradores, produtores rurais, turistas e trabalhadores que utilizam diariamente a rodovia convivem com os desafios provocados pelo estreitamento da passagem.
Durante a inauguração das obras de pavimentação da MT-402 e MT-030, Otaviano Pivetta, Governador de Mato Grosso informou à comunidade que a duplicação da ponte está prevista para ocorrer em breve, acompanhando o crescimento da região e a nova realidade de tráfego proporcionada pelo asfaltamento da rodovia. A expectativa é que a obra proporcione mais segurança, fluidez e conforto para quem utiliza o acesso ao Coxipó do Ouro.
Enquanto a população aguarda a concretização desse importante investimento, permanece viva a esperança de que a região possa, ao mesmo tempo, avançar em infraestrutura e preservar sua história. A futura duplicação da ponte moderna e a recuperação da antiga Ponte de Ferro representam duas ações complementares: uma voltada para o futuro e outra dedicada à preservação da memória de um dos mais importantes patrimônios históricos do Coxipó do Ouro.
A história de um uruguaio que ajudou a construir pontes e formou uma família no Coxipó do Ouro
Entre as histórias preservadas pela memória dos moradores da região, uma das mais marcantes é a do Sr. Romeu Lucialdo, uruguaio que chegou a Mato Grosso no final do século XIX para trabalhar na construção das pontes metálicas que se tornariam marcos históricos da Baixada Cuiabana.
Segundo relatos de familiares e descendentes, Romeu Lucialdo atuava como administrador das obras das pontes de ferro construídas nos distritos: do Coxipó da Ponte, do Coxipó do Ouro e da Nossa Senhora da Guia. Sua função exigia constantes viagens entre a América do Sul e Mato Grosso, sendo responsável pelo acompanhamento da chegada de peças e materiais utilizados nas construções metálicas que seguiam os modernos padrões de engenharia da época.
Foi durante uma dessas viagens e permanências em Mato Grosso que Romeu conheceu a jovem Cecília de Freitas, integrante de uma das famílias tradicionais da região. O encontro deu origem a uma história de amor que acabaria contribuindo para a formação de uma das famílias mais conhecidas do Coxipó do Ouro.
Do casamento nasceram cinco filhos: Agredino Freitas Lucialdo, Tarquino Freitas Lucialdo, Mencia Freitas Lucialdo, Elio Freitas Lucialdo e Leonel de Freitas Lucialdo, descendência que ajudou a perpetuar o sobrenome Lucialdo e fortalecer os laços familiares na região.
A família de Dona Cecília possuía raízes profundas na comunidade. O sobrenome Freitas tornou-se referência histórica local, dando origem ao tradicional Arraial dos Freitas, localidade que até hoje preserva a memória dos pioneiros que contribuíram para o desenvolvimento do Coxipó do Ouro e arredores.
Infelizmente, Romeu Lucialdo faleceu ainda jovem, não tendo a oportunidade de acompanhar toda a transformação proporcionada pelas obras das quais participou. No entanto, seu legado permanece vivo tanto nas histórias contadas pelos descendentes quanto na memória das antigas pontes que ajudou a erguer.
Neste contexto, a antiga Ponte de Ferro do Coxipó do Ouro não representa apenas uma obra de engenharia. Ela simboliza também a trajetória de homens e mulheres que deixaram suas terras de origem, enfrentaram enormes desafios e ajudaram a construir a infraestrutura que possibilitou o desenvolvimento da região.
Três pontes que marcaram uma época
Relatos históricos apontam que as pontes metálicas construídas no final do século XIX na região do Coxipó da Ponte, Coxipó do Ouro e Nossa Senhora da Guia integravam um importante projeto de infraestrutura para Mato Grosso. Produzidas segundo os padrões tecnológicos mais avançados de sua época, essas estruturas metálicas tornaram-se símbolos do progresso e da integração regional.
A primeira dessas pontes completa, em 20 de junho de 2026, 129 anos de sua inauguração, marco histórico que relembra a ousadia dos engenheiros, trabalhadores e administradores que participaram desse grandioso empreendimento. Mais de um século depois, essas obras continuam despertando admiração e reforçando a importância da preservação da memória e do patrimônio histórico mato-grossense.
As Pontes de Ferro não são apenas uma obra de engenharia. Ela são um monumento à memória, à perseverança e à história de um povo que jamais esqueceu suas raízes.
Porque uma ponte não une apenas margens. Ela une histórias, famílias, gerações e sonhos.


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